Maria Fernanda de Abreu: "Ibéria, à procura de identidade literária: uma jangada de pedra?"
Tendo como pressupostos: 1- um espaço geocultural ibérico; 2- uma singularidade ibérica em confronto com outros conjuntos identitários, no âmbito cultural e literário; 3- uma identidade pan-regional no contexto europeu, multinacional e plurilinguística, a Peninsula Ibérica tem vindo a ser considerada como um mega-quadro identitário - entre os mais restritos das identidades "nacionais" que a compõem e o mais amplo dito "europeu". Propomo-nos, assim, debater em torno de alguns "fundamentos" -antropológicos, geográficos ou outros- a que a narração da história literária ibérica tem recorrido para sustentar aquela singularidade.
Maria Graciete Besse: "Reconfigurações do Iberismo entre paixão e utopia"
Tentaremos propor uma reflexão sobre o Iberismo, entendido como conceito dinâmico e evolutivo na sua reconfiguração literária. Para tal, desenharemos uma cartografia que vai de Antero de Quental a José Saramago, passando nomeadamente por Miguel Torga, Natália Correia, Eduardo Lourenço e João de Melo, de forma a sublinhar como o projecto federalista, promovido sobretudo pelos valores político-culturais do século XIX, que nele procuravam uma solução para a “decadência dos povos peninsulares”, se transforma consideravelmente ao longo do século XX, convergindo tanto na alegoria utópica/distópica da “jangada de pedra”, como na expressão “abreviada de uma estranheza” ibérica fundamental, nunca deixando de provocar interessantes polémicas.
Helena Buffery: "A identidade catalã na 'Translation Zone'"
Esta apresentação abordará diferentes aspectos do meu trabalho sobre a construção e a representação da identidade no espaço cultural catalão, reflectindo sobre a sua relação com outras identidades no interior da Península Ibérica. Abordará principalmente propostas e perspectivas dos Estudos de Tradução, no sentido de identificar e explorar as diferentes maneiras em que o processo de tradução tem contribuído para os actuais entendimentos das identidades ibéricas. Começando por relembrar as mais habituais descrições da operação de tradução em zonas de contacto cultural caracterizadas por desiguais relações de poder (com base principalmente na Teoria dos Sistemas e em abordagens Pós-coloniais), avançarei para a discussão do modo como a função cultural da tradução tem sido interpretada em estudos de história cultural catalã dos séculos XIX e XX, tratando por fim as construções contemporâneas através do prisma do que Emily Apter chama “Translation Zone”. Embora os exemplos usados sejam colhidos na produção cultural catalã contemporânea, ocupar-me-ei dos modos como eles constroem, representam e interagem com outras comunidades e cuturas ibéricas.
César Domínguez: "Literaturas em Espanha: Literatura europeia, Literatura mundial, Literatura-Mundo?"
De um ponto de vista metageográfico, as três características distintivas da Península Ibérica têm sido a sua situação periférica, o isolamento e a menorização no seio do continente europeu. Adicionalmente, o seu plurilinguismo e multiculturalismo têm conduzido à amálgama destas três características numa visão da Península como entidade auto-suficiente, uma espécie de microcosmos cuja identidade espacial está ligada a uma cronopolítica da diferença, em oposição à Europa. Em consequência, as diversas culturas europeias têm lutado, por um lado, contra o seu grau inferior de “europeidade” e, por outro, contra a homogeneização promovida pelo “Outro” europeu, que o “Eu” ibérico construiu como diferentes versões de etnocentrismo e, mais significativamente, de castelhano-centrismo. Em termos literários, esta oposição “Outro” europeu/ “Eu” ibérico tem-se traduzido em narrativas e histórias divergentes das literaturas ibéricas, num género nascido na Europa e a que a Ibéria respondeu. O objectivo desta comunicação é explorar um dos momentos mais relevantes deste processo, concretamente o “fin-de-siècle”, com a análise de quatro narrativas periféricas: a orla transatlântica espanhola, Portugal, Galiza e Catalunha. Estas narrativas periféricas iluminam o papel que as literaturas Ibéricas poderão assumir no contexo da literatura europeia e mundial.
Ângela Fernandes: "Identidades ibéricas e românicas: o fundamento literário"
O lugar de uma identidade cultural ibérica no seio do mundo românico afigura-se uma questão bastante negligenciada, provavelmente devido ao seu escasso potencial polémico na actualidade. A discussão em torno de uma identidade românica, com as suas raizes na cultura clássica romana e na língua latina, perdeu muito do seu interesse durante o século XX, à medida que se tornaram mais relevantes novos tópicos de tensão geo-cultural. A base românica constitui, no entanto, um elemento essencial para a compreensão das culturas ibéricas. Esta apresentação procurará revisitar a história e a situação actual das identidades culturais românicas e ibéricas, considerando não apenas a matriz latina do mundo ocidental mas também a dimensão literária de imagens e ideias tão significativas. O romance Um deus passeando pela brisa da tarde (1994), de Mário de Carvalho, será o ponto de partida para esta reflexão.
Derek Flitter: "Norte e Sul: a formação da identidade ibérica no Romantismo e no Pós-Romantismo"
As teorias românticas da literatura permitiram a figuração, na Península Ibérica, de uma consciência poética “nórdica” aplicável especialmente ao litoral Atlântico e condicionando a construção de paisagens literárias distintivas e separadas de vínculos “meridionais” ou mediterrânicos. Relacionado intimamente com as concepções norte-europeias do Sublime e com a preferência estética pela especulação metafísica abstracta, este fenómeno afectou profundamente a recriação generalizada da Espanha medieval durante o próprio Romantismo espanhol e foi, posteriormente, apropriado pelo discurso dominante do Rexurdimento galego de finais do século XIX. A Espanha medieval e moderna converte-se num locus para o ensaio das identidades ibéricas desde o prisma da teoria romântica norte-europeia, e a sua evocação torna-se um meio para explorar limites estéticos.
Esther Gimeno Ugalde: "Reafirmando identidades: culturas ibéricas e diversidade (linguística) no cinema contemporâneo"
Ao mesmo tempo que aumenta o número de co-produções no cinema espanhol, e proliferam os exemplos de filmes transnacionais (muitas vezes falados em inglês) destinados a um público internacional (Los otros de Alejandro Amenábar, Los crímenes de Oxford de Alex de la Iglesia, Mi vida sin mí de Isabel Coixet, Biutifil de Alejandro González Iñárritu, etc.), também cresce o interesse por um cinema que pretende reafirmar as identidades locais e reflectir a pluralidade cultural e linguística da Península Ibérica. Assim, embora seja certo que o cinema global e os filmes transnacionais dominam uma boa parte dos nossos ecrãs, também é verdade que se constata um renovado interesse pela afirmação das identidades nacionais e culturais no cinema. São prova disso alguns dos títulos de mais sucesso das últimas décadas, que se inserem num contexto geográfico, cultural e, em alguns casos, mesmo linguístico, muito específico. Referimo-nos a títulos como La teta i la lluna (Bigas Luna 1994), A língua das borboretas (José Luis Cuerda 1999), Solas (Benito Zambrano 1999), Salvador (Manuel Huerga 2006) o Pa negre (Agustí Villaronga 2010), e também a outros filmes menos conhecidos, mas nem por isso menos interessantes: Aupa Etxebeste! (Asier Altuna/Telmo Esnal 2005), Kutsidazu Bidea Ixabel/Enséñame el camino, Isabel (Fernando Bernués 2006), El coronel Macià (Josep Maria Forn 2006), Zorion perfektua/Felicidad perfecta (Jabi Elortegi 2009), Izarren argia/Estrellas que alcanzar (Mikel Rueda 2010), etc.
O cinema, como reflexo da cultura e ao mesmo tempo como seu produtor, contribui para criar imaginários colectivos e comunidades identitárias como a espanhola, a catalã, a basca, a andaluza, etc. A partir de um pequeno corpus de filmes e fazendo um percurso histórico desde a Transição até ao momento actual, esta apresentação proporá diversas (e polémicas) questões a propósito do papel das identidades nacionais no cinema: em que medida se representam os diversos imaginários colectivos da Península no cinema? Que papel tem a memória histórica e as diferentes literaturas na busca de temas próprios? Que simbologia e aspectos culturais se destacam para criar espaços identitários diferenciados? Que papel desempenha a língua na criação de identidades no cinema? Para além destes aspectos, a apresentação abordará o problema das definições de cinema basco, galego e andaluz, face a um conceito muito mais implantado e aceite como é o de cinema catalão.
Jon Kortazar: "O romance de Kirmen Uribe e a identidade em sociedades complexas"
Nesta apresentação pretendemos analisar alguns dos aspectos fundamentais do romance Bilbao-New York-Bilbao (2008) [Os dois amigos] de Kirmen Uribe. Neste romance, podemos observar como a identidade nacional se põe em questão através de linhas de transversalidade política ou de relacionamento pessoal acima de posições políticas, o que pode ser entendido no marco de uma identidade pós-nacional.
John Macklin: "Modernismo e Modernidade: perspectivas ibéricas"
Nesta comunicação revisitarei alguns dos meus trabalhos dos anos 80 sobre Modernismo e modernidade em Espanha como estímulo para o desenvolvimento de um novo pensamento sobre o conceito do espaço literário ibérico. O meu trabalho nessa altura, no primeiro pós-franquismo, tentava situar a literatura espanhola do início do século XX num contexto europeu mais alargado, como desafio a uma perspectiva puramente nacional(ista) da historiografia literária espanhola contemporânea, que tinha também influenciado o Hispanismo Britânico da época.
Desde então, o nosso conhecimento e o nosso enfoque teórico sobre a ideia de intercâmbio cultural têm-se expandido e questionado. Em resumo, o interesse pelo génio literário solitário, e depois pelos períodos e géneros, e pelos espaços particulares de produção, cedeu passo à preocupação pela diversidade de modos de intercâmbio cultural, circulação e transformação. Modernidade e Modernismo, a expressão artística da crise da modernidade, são vistos cada vez mais como fenómenos múltiplos e complexos, não reductíveis a um tempo específico ou a um conjunto de práticas estéticas. A interação com outras agendas políticas e intelectuais, com questões de raça, internacionalismo, feminismo, pós-colonialismo, meio-ambientalismo, corpo, identidade, etc., é com frequência explorada através de uma preocupação com a criação de redes, identificações, reacções e assimilações. Esta apresentação explorará a maneira como a noção de espaço literário ibérico tem sido enriquecida, expandida e perturbada por diálogos culturais e ideológicos cada vez mais complexos.
Gabriel Magalhães: "Europa, a letra dos números. Do alfa da literatura comparada peninsular ao ómega da literatura europeia comparada"
Na actual situação de crise europeia, que nos ameaça com cenários de desintegração, poderá a literatura comparada funcionar como o princípio de um horizonte? Desde o século XIX, realizaram-se estudos ibéricos de tipo comparatista, na área da literatura, procurando de algum modo o enigma da nossa Península. Que resultados se alcançaram, afinal? E a viagem que por cá se fez poderia inspirar uma demanda mais ampla europeia? Será possível passar da presente Europa, perdida no labirinto dos seus números, a uma ideia continental mais abrangente? Que papel poderá ter a literatura nesta desejada alquimia? São estas perguntas que traçarão a rota da nossa pesquisa.
Ferenc Pál: "Os portugueses tocam alegremente? A imagem de Portugal, da história e do povo português na Hungria durante o século XIX (Questões teóricas da sua recepção)"
É bem sabido que durante o século XIX o poeta português Camões era muito conhecido na Hungria, e de facto pode-se falar de um verdadeiro culto a Camões: o seu nome era mencionado com frequência, ele mesmo foi personagem de romances e poemas, e centro de debates históricos sobre a origem húngara da dinastia portuguesa, mencionada na estância 25 do Canto III do seu poema Os Lusíadas. Na nossa apresentação gostaríamos de analisar o modo como este culto a Camões influenciou a imagem de Portugal e dos portugueses nos séculos XIX e XX na Hungria.
Craig Patterson: "Identidade e raça galegas: uma leitura pós-colonial de Castelao"
O estudo das questões de raça e identidade na obra de escritores galegos tem-se centrado quase exclusivamente em Vicente Risco. Embora os comentários anti-semitas incluídos nos escritos de Risco expliquem em grande parte este facto, isto também se deve sem dúvida relacionar com o seu apoio ao regime franquista. O teórico apóstata do nacionalismo galego tem sido um alvo fácil, dada a relutância da crítica em aplicar o mesmo escrutínio a outros escritores galegos considerados indispensáveis para a normalização de uma cultura nacional minoritária.
Castelao, a simbólica figura de proa do nacionalismo galego, expressou ideias claramente racistas sobre as culturas negra e judia nos seus escritos públicos e privados durante os anos 30 e princípios dos 40. Contudo, mais tarde renegou estas ideias, após as suas experiências formativas nos EUA e na América Latina durante o exílio, um período em que o seu trabalho também mostra o afastamento das noções puramente essencialistas de espaço e identidade.
Esta comunicação explorará as complexidades da relação de Castelao com o conceito de raça e identidade, examinando as suas obras publicadas, os seus cadernos e a sua arte visual. Através da referência a uma teoria crítica da raça, procurar-se-á situar Castelao no contexto mais amplo da escrita no exílio e na diáspora, assim como reflectir sobre as implicações relativas ao seu estatuto na cultura galega actual.
Santiago Pérez Isasi: "Os Estudos Ibéricos: um Estado da Arte e perspectivas de futuro"
A área dos Estudos Ibéricos tem registado um crescimento constante nas últimas décadas, como alternativa às disciplinas mais monolíticas (e frequentemente monolingues) dos Estudos Hispânicos ou Portugueses (ou Bascos, Galegos ou Catalães). Publicações, congressos, departamentos, grupos e projectos de investigação recentes evidenciam esta tendência de interdisciplinaridade que, se em alguns casos talvez responda a motivos estritamente institucionais, e noutros a uma simples moda, também pode ser entendida como o resultado do esgotamento dos modelos filológicos nacionais e tradicionais, e ao desenvolvimento de uma abordagem verdadeiramente comparatista e transnacional dos fenómenos literários ibéricos. Em qualquer caso, este é um campo ainda altamente fragmentado, e carente de fundamentos teóricos sólidos, de uma metodologia e de objectivos específicos. Esta comunicação tentará, portanto, oferecer um muito breve “estado da arte” do campo dos Estudos Ibéricos, na Península e fora dela, assim como uma definição tentativa dos seus limites, configuração e perspectivas de futuro.
Teresa Pinheiro: "Os Estudos Ibéricos e Europeus – Arqueologia de um novo campo epistemológico"
Na última década, assistimos à institucionalização dos Estudos Europeus nas universidades do continente europeu. O surgimento deste novo campo académico relaciona-se com o processo de integração europeia e com a crescente popularidade dos “Estudos de Área” na Europa. Embora os Estudos Ibéricos estejam ainda muito ligados à tradição dos estudos filológicos, tem havido algumas tentativas recentes para institucionalizar este campo epistemológico no interior dos Estudos Europeus. Na minha contribuição, tentarei delinear alguns dos fundamentos teóricos e temáticos dos Estudos Ibéricos como campo de estudo na sua intersecção com os Estudos Europeus, tal como se praticam nas Universidades da Europa Ocidental.
Cristina Almeida Ribeiro: "Existe Ibéria na Idade Média tardia e na primeira Idade Moderna?"
A naturalidade com que tantas vezes hoje se fala da Ibéria concebida como uma unidade mais do que geográfica quase faz esquecer que durante séculos uma tal percepção não existiu, nem para os intelectuais, nem para os governantes. Quando remontamos aos finais da Idade Média e nos confrontamos com aspirações hegemónicas tendentes ao domínio do território peninsular, depressa percebemos que no horizonte dos reis não estava então a vontade de tutelar um espaço homogéneo e simplesmente designado por Ibéria – palavra então desprovida de sentido –, mas antes o desejo de associar ao seu nome um elenco alargado de senhorios, que, pela justaposição, exibissem a glória das suas conquistas ou o alcance da sua visão política. Repercutindo no plano cultural e literário a rivalidade patente no plano social e político, também a actividade dos poetas se fazia então quase sempre sob o signo da emulação, que, assumida ou dissimulada, se traduzia, para cada grupo nacional, na busca de uma identidade própria, passível de afirmação através da superioridade ou da diferença. E, no entanto, impossível será não reconhecer que a realidade histórica favorecia um intercâmbio cultural intenso, que, ao ritmo oscilante de alianças e confrontos, embaixadas e exílios, permitiu a emergência de afinidades electivas e a constituição de quadros de referências comuns que parecem dar aos estudiosos do século XXI razões para estudar, na sua especificidade, os cancioneiros ibéricos ou o romance pastoril ibérico.
Juan Miguel Ribera Llopis: "Apreciações centropeninsulares sobre a regeneração literária catalã"
É preciso atentar na documentação coetânea que testemunha o grau de recepção e o discurso crítico estabelecido entre o final do século XIX e o início do século XX por parte do sistema literário castelhano, historicamente estável, a respeito das regenerações literárias galega e catalã - contempladas como literaturas regionais, expoentes de sistemas literários menorizados. O reconhecimento da Península Ibérica como uma área interliterária, configurada como espaço com um âmbito central e outros periféricos, permite dotar estas categorias espaciais de uma dupla semântica: do ponto de vista geográfico, com um centro equidistante, e da perspectiva da exclusão histórico-cultural. Do mesmo modo, a categoria do periférico permite atender ao interesse, no lado português, por estes regeneracionismos estatalmente espanhóis mas culturalmente ibéricos. Centrar-nos-emos na cronologia indicada, por entender que é esse o momento em que os regeneracionismos galego e catalão forjam os seus respectivos modelos de sistemas culturais, que têm marcado a sua trajectória contemporânea.
O escritor e diplomata espanhol Juan Valera desenvolveu, desde a sua primeira temporada em Lisboa (1850), uma intensa actividade de leitura, crítica e relações pessoais com escritores portugueses contemporâneos. Desde as suas contribuições na Revista Peninsular (1855-1856) até ao seu romance Morsamor (1899) deu disto amplo testemunho de isto. Nesta intervenção serão estudados e discutidos os conceptos de “nação” e “civilização” tal como Valera os usava para explicar a sua ideia do que tinham sido e do que deviam ser as relações entre os países ibéricos.
Jaume Subirana: "Quem é que somos? Jovens romancistas catalães escrevem sobre a identidade nacional"
Com o aparecimento, por um lado, de uma brilhante geração de jovens narradores que não têm já qualquer ligação com as coordenadas do Franquismo e, por outro lado, com a maior transformação operada na população da Catalunha desde os anos sessenta (em dez anos, de 2000 a 2010, passou-se de 6 para 7 milhões de habitantes, com um milhão de novos cidadãos, maioritariamente estrangeiros), o tema da identidade (ou das identidades), o olhar sobre o país, e a tentativa de dar nome aos que nele vivem, reapareceram nas livrarias com títulos que, nalguns casos, obtiveram muito boa resposta por parte do público. A ferramenta para a reflexão destes jovens escritores é hoje a ficção literária, mais do que o ensaio, sem renunciar a nenhuma das suas possíveis formas (novela e conto, naturalmente, mas também reportagem jornalística, crónica, pseudobiografia e memória pessoal).
Jüri Talvet: "Como investigar as literaturas ibéricas numa perspectiva comparada e europeia? Premissas e contextos"
Na minha apresentação tentarei caracterizar o estado actual dos estudos literários comparados na Europa e no mundo, mostrando os seus avanços e os seus importantes vazios, tanto na teoria como na prática. Desenvolverei as ideias e conceitos postulados no meu artigo “Edaphos and Episteme of Comparative Literature” (Interlitteraria, 10, 2005, pp. 46-56), incidindo não tanto na recepção da literatura no eixo “texto-leitor” ou “texto-texto”, mas nas premissas e nos contextos da recepção intercultural da literatura, especialmente em relação com os conceitos de “centros”, “periferias” e “fronteiras” (baseando-me, neste aspecto, em algumas das ideias apresentadas nos últimos escritos de Yuri M. Lotman).
Roberto Vecchi: "Pensando desde a Europa num 'Sul' ibérico"
Ainda que através de um processo bastante complexo, a inscrição europeia da Península Ibérica define uma posição meridional e a conceptualização desse aspecto e, num sentido mais geral, das culturas nacionais que compõem a Península. Neste sentido, a Península Ibérica suscita sempre uma reconfiguração da ideia do Sul (europeu), em especial face a outras noções do “sul” (em sentido plural), como o “Meridione” italiano definido de um modo extremamente agudo e seminal por Antonio Gramsci. Deste ponto de vista, torna-se muito interessante averiguar quando é que a consciência meridional se torna crucial no ámbito das reflexões europeias nas culturas ibéricas, como acontece na conferência de Antero de Quental Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos (1871) e, mais genericamente, no horizonte cultural peninsular do fin-de-siècle.
Assim, é relevante considerar o contexto ibérico no quadro do movimento de modernização, em particular verificando como esse movimiento subjectiviza (num modo duplo, Foucaultiano) este espaço como o seu Sul específico e intersubjectivo (ou seja, relacional), aproximando-se da esfera do que, de novo com Gramsci, poderemos chamar um espaço social “subalterno”. Os estudos culturais e pós-coloniais contemporâneos, ainda que delineados dentro e não fora da Europa, podem contribuir para melhor configurar este processo, fornecendo novas ferramentas e tópicos para interpretar o “sul” –mesmo o Sul ibérico- como uma construção cultural e política.
O objectivo desta comunicação é definir os limites do conceito de “açorianidade” de acordo com uma perspectiva oriunda do outro extremo da Europa, e que traduz o olhar (de parte) dos leitores da literatura lusófona. Em consequência, resulta da leitura de textos literários de paises ibéricos e transatlânticos. A análise deste tipo de literatura cruza o continente europeu de Este a Oeste, e fica indubitavelmente contaminada. Assumo que definir “açorianidade” apenas do ponto de vista da produção literária poderá ser uma tarefa arriscada devido à suas limitações. Aceito o risco, e coloco a hipótese de que a “açorianidade literária”, uma vez circunscrita, descrita e definida, proporcionará evidência e argumentos para uma definição tão completa quanto possível de “açorianidade”.
RESUMOS
Maria Fernanda de Abreu: "Ibéria, à procura de identidade literária: uma jangada de pedra?"
Tendo como pressupostos: 1- um espaço geocultural ibérico; 2- uma singularidade ibérica em confronto com outros conjuntos identitários, no âmbito cultural e literário; 3- uma identidade pan-regional no contexto europeu, multinacional e plurilinguística, a Peninsula Ibérica tem vindo a ser considerada como um mega-quadro identitário - entre os mais restritos das identidades "nacionais" que a compõem e o mais amplo dito "europeu". Propomo-nos, assim, debater em torno de alguns "fundamentos" -antropológicos, geográficos ou outros- a que a narração da história literária ibérica tem recorrido para sustentar aquela singularidade.
Maria Graciete Besse: "Reconfigurações do Iberismo entre paixão e utopia"
Tentaremos propor uma reflexão sobre o Iberismo, entendido como conceito dinâmico e evolutivo na sua reconfiguração literária. Para tal, desenharemos uma cartografia que vai de Antero de Quental a José Saramago, passando nomeadamente por Miguel Torga, Natália Correia, Eduardo Lourenço e João de Melo, de forma a sublinhar como o projecto federalista, promovido sobretudo pelos valores político-culturais do século XIX, que nele procuravam uma solução para a “decadência dos povos peninsulares”, se transforma consideravelmente ao longo do século XX, convergindo tanto na alegoria utópica/distópica da “jangada de pedra”, como na expressão “abreviada de uma estranheza” ibérica fundamental, nunca deixando de provocar interessantes polémicas.
Helena Buffery: "A identidade catalã na 'Translation Zone'"
Esta apresentação abordará diferentes aspectos do meu trabalho sobre a construção e a representação da identidade no espaço cultural catalão, reflectindo sobre a sua relação com outras identidades no interior da Península Ibérica. Abordará principalmente propostas e perspectivas dos Estudos de Tradução, no sentido de identificar e explorar as diferentes maneiras em que o processo de tradução tem contribuído para os actuais entendimentos das identidades ibéricas. Começando por relembrar as mais habituais descrições da operação de tradução em zonas de contacto cultural caracterizadas por desiguais relações de poder (com base principalmente na Teoria dos Sistemas e em abordagens Pós-coloniais), avançarei para a discussão do modo como a função cultural da tradução tem sido interpretada em estudos de história cultural catalã dos séculos XIX e XX, tratando por fim as construções contemporâneas através do prisma do que Emily Apter chama “Translation Zone”. Embora os exemplos usados sejam colhidos na produção cultural catalã contemporânea, ocupar-me-ei dos modos como eles constroem, representam e interagem com outras comunidades e cuturas ibéricas.
César Domínguez: "Literaturas em Espanha: Literatura europeia, Literatura mundial, Literatura-Mundo?"
De um ponto de vista metageográfico, as três características distintivas da Península Ibérica têm sido a sua situação periférica, o isolamento e a menorização no seio do continente europeu. Adicionalmente, o seu plurilinguismo e multiculturalismo têm conduzido à amálgama destas três características numa visão da Península como entidade auto-suficiente, uma espécie de microcosmos cuja identidade espacial está ligada a uma cronopolítica da diferença, em oposição à Europa. Em consequência, as diversas culturas europeias têm lutado, por um lado, contra o seu grau inferior de “europeidade” e, por outro, contra a homogeneização promovida pelo “Outro” europeu, que o “Eu” ibérico construiu como diferentes versões de etnocentrismo e, mais significativamente, de castelhano-centrismo. Em termos literários, esta oposição “Outro” europeu/ “Eu” ibérico tem-se traduzido em narrativas e histórias divergentes das literaturas ibéricas, num género nascido na Europa e a que a Ibéria respondeu. O objectivo desta comunicação é explorar um dos momentos mais relevantes deste processo, concretamente o “fin-de-siècle”, com a análise de quatro narrativas periféricas: a orla transatlântica espanhola, Portugal, Galiza e Catalunha. Estas narrativas periféricas iluminam o papel que as literaturas Ibéricas poderão assumir no contexo da literatura europeia e mundial.
Ângela Fernandes: "Identidades ibéricas e românicas: o fundamento literário"
O lugar de uma identidade cultural ibérica no seio do mundo românico afigura-se uma questão bastante negligenciada, provavelmente devido ao seu escasso potencial polémico na actualidade. A discussão em torno de uma identidade românica, com as suas raizes na cultura clássica romana e na língua latina, perdeu muito do seu interesse durante o século XX, à medida que se tornaram mais relevantes novos tópicos de tensão geo-cultural. A base românica constitui, no entanto, um elemento essencial para a compreensão das culturas ibéricas. Esta apresentação procurará revisitar a história e a situação actual das identidades culturais românicas e ibéricas, considerando não apenas a matriz latina do mundo ocidental mas também a dimensão literária de imagens e ideias tão significativas. O romance Um deus passeando pela brisa da tarde (1994), de Mário de Carvalho, será o ponto de partida para esta reflexão.
Derek Flitter: "Norte e Sul: a formação da identidade ibérica no Romantismo e no Pós-Romantismo"
As teorias românticas da literatura permitiram a figuração, na Península Ibérica, de uma consciência poética “nórdica” aplicável especialmente ao litoral Atlântico e condicionando a construção de paisagens literárias distintivas e separadas de vínculos “meridionais” ou mediterrânicos. Relacionado intimamente com as concepções norte-europeias do Sublime e com a preferência estética pela especulação metafísica abstracta, este fenómeno afectou profundamente a recriação generalizada da Espanha medieval durante o próprio Romantismo espanhol e foi, posteriormente, apropriado pelo discurso dominante do Rexurdimento galego de finais do século XIX. A Espanha medieval e moderna converte-se num locus para o ensaio das identidades ibéricas desde o prisma da teoria romântica norte-europeia, e a sua evocação torna-se um meio para explorar limites estéticos.
Esther Gimeno Ugalde: "Reafirmando identidades: culturas ibéricas e diversidade (linguística) no cinema contemporâneo"
Ao mesmo tempo que aumenta o número de co-produções no cinema espanhol, e proliferam os exemplos de filmes transnacionais (muitas vezes falados em inglês) destinados a um público internacional (Los otros de Alejandro Amenábar, Los crímenes de Oxford de Alex de la Iglesia, Mi vida sin mí de Isabel Coixet, Biutifil de Alejandro González Iñárritu, etc.), também cresce o interesse por um cinema que pretende reafirmar as identidades locais e reflectir a pluralidade cultural e linguística da Península Ibérica. Assim, embora seja certo que o cinema global e os filmes transnacionais dominam uma boa parte dos nossos ecrãs, também é verdade que se constata um renovado interesse pela afirmação das identidades nacionais e culturais no cinema. São prova disso alguns dos títulos de mais sucesso das últimas décadas, que se inserem num contexto geográfico, cultural e, em alguns casos, mesmo linguístico, muito específico. Referimo-nos a títulos como La teta i la lluna (Bigas Luna 1994), A língua das borboretas (José Luis Cuerda 1999), Solas (Benito Zambrano 1999), Salvador (Manuel Huerga 2006) o Pa negre (Agustí Villaronga 2010), e também a outros filmes menos conhecidos, mas nem por isso menos interessantes: Aupa Etxebeste! (Asier Altuna/Telmo Esnal 2005), Kutsidazu Bidea Ixabel/Enséñame el camino, Isabel (Fernando Bernués 2006), El coronel Macià (Josep Maria Forn 2006), Zorion perfektua/Felicidad perfecta (Jabi Elortegi 2009), Izarren argia/Estrellas que alcanzar (Mikel Rueda 2010), etc.
O cinema, como reflexo da cultura e ao mesmo tempo como seu produtor, contribui para criar imaginários colectivos e comunidades identitárias como a espanhola, a catalã, a basca, a andaluza, etc. A partir de um pequeno corpus de filmes e fazendo um percurso histórico desde a Transição até ao momento actual, esta apresentação proporá diversas (e polémicas) questões a propósito do papel das identidades nacionais no cinema: em que medida se representam os diversos imaginários colectivos da Península no cinema? Que papel tem a memória histórica e as diferentes literaturas na busca de temas próprios? Que simbologia e aspectos culturais se destacam para criar espaços identitários diferenciados? Que papel desempenha a língua na criação de identidades no cinema? Para além destes aspectos, a apresentação abordará o problema das definições de cinema basco, galego e andaluz, face a um conceito muito mais implantado e aceite como é o de cinema catalão.
Jon Kortazar: "O romance de Kirmen Uribe e a identidade em sociedades complexas"
Nesta apresentação pretendemos analisar alguns dos aspectos fundamentais do romance Bilbao-New York-Bilbao (2008) [Os dois amigos] de Kirmen Uribe. Neste romance, podemos observar como a identidade nacional se põe em questão através de linhas de transversalidade política ou de relacionamento pessoal acima de posições políticas, o que pode ser entendido no marco de uma identidade pós-nacional.
John Macklin: "Modernismo e Modernidade: perspectivas ibéricas"
Nesta comunicação revisitarei alguns dos meus trabalhos dos anos 80 sobre Modernismo e modernidade em Espanha como estímulo para o desenvolvimento de um novo pensamento sobre o conceito do espaço literário ibérico. O meu trabalho nessa altura, no primeiro pós-franquismo, tentava situar a literatura espanhola do início do século XX num contexto europeu mais alargado, como desafio a uma perspectiva puramente nacional(ista) da historiografia literária espanhola contemporânea, que tinha também influenciado o Hispanismo Britânico da época.
Desde então, o nosso conhecimento e o nosso enfoque teórico sobre a ideia de intercâmbio cultural têm-se expandido e questionado. Em resumo, o interesse pelo génio literário solitário, e depois pelos períodos e géneros, e pelos espaços particulares de produção, cedeu passo à preocupação pela diversidade de modos de intercâmbio cultural, circulação e transformação. Modernidade e Modernismo, a expressão artística da crise da modernidade, são vistos cada vez mais como fenómenos múltiplos e complexos, não reductíveis a um tempo específico ou a um conjunto de práticas estéticas. A interação com outras agendas políticas e intelectuais, com questões de raça, internacionalismo, feminismo, pós-colonialismo, meio-ambientalismo, corpo, identidade, etc., é com frequência explorada através de uma preocupação com a criação de redes, identificações, reacções e assimilações. Esta apresentação explorará a maneira como a noção de espaço literário ibérico tem sido enriquecida, expandida e perturbada por diálogos culturais e ideológicos cada vez mais complexos.
Gabriel Magalhães: "Europa, a letra dos números. Do alfa da literatura comparada peninsular ao ómega da literatura europeia comparada"
Na actual situação de crise europeia, que nos ameaça com cenários de desintegração, poderá a literatura comparada funcionar como o princípio de um horizonte? Desde o século XIX, realizaram-se estudos ibéricos de tipo comparatista, na área da literatura, procurando de algum modo o enigma da nossa Península. Que resultados se alcançaram, afinal? E a viagem que por cá se fez poderia inspirar uma demanda mais ampla europeia? Será possível passar da presente Europa, perdida no labirinto dos seus números, a uma ideia continental mais abrangente? Que papel poderá ter a literatura nesta desejada alquimia? São estas perguntas que traçarão a rota da nossa pesquisa.
Ferenc Pál: "Os portugueses tocam alegremente? A imagem de Portugal, da história e do povo português na Hungria durante o século XIX (Questões teóricas da sua recepção)"
É bem sabido que durante o século XIX o poeta português Camões era muito conhecido na Hungria, e de facto pode-se falar de um verdadeiro culto a Camões: o seu nome era mencionado com frequência, ele mesmo foi personagem de romances e poemas, e centro de debates históricos sobre a origem húngara da dinastia portuguesa, mencionada na estância 25 do Canto III do seu poema Os Lusíadas. Na nossa apresentação gostaríamos de analisar o modo como este culto a Camões influenciou a imagem de Portugal e dos portugueses nos séculos XIX e XX na Hungria.
Craig Patterson: "Identidade e raça galegas: uma leitura pós-colonial de Castelao"
O estudo das questões de raça e identidade na obra de escritores galegos tem-se centrado quase exclusivamente em Vicente Risco. Embora os comentários anti-semitas incluídos nos escritos de Risco expliquem em grande parte este facto, isto também se deve sem dúvida relacionar com o seu apoio ao regime franquista. O teórico apóstata do nacionalismo galego tem sido um alvo fácil, dada a relutância da crítica em aplicar o mesmo escrutínio a outros escritores galegos considerados indispensáveis para a normalização de uma cultura nacional minoritária.
Castelao, a simbólica figura de proa do nacionalismo galego, expressou ideias claramente racistas sobre as culturas negra e judia nos seus escritos públicos e privados durante os anos 30 e princípios dos 40. Contudo, mais tarde renegou estas ideias, após as suas experiências formativas nos EUA e na América Latina durante o exílio, um período em que o seu trabalho também mostra o afastamento das noções puramente essencialistas de espaço e identidade.
Esta comunicação explorará as complexidades da relação de Castelao com o conceito de raça e identidade, examinando as suas obras publicadas, os seus cadernos e a sua arte visual. Através da referência a uma teoria crítica da raça, procurar-se-á situar Castelao no contexto mais amplo da escrita no exílio e na diáspora, assim como reflectir sobre as implicações relativas ao seu estatuto na cultura galega actual.
Santiago Pérez Isasi: "Os Estudos Ibéricos: um Estado da Arte e perspectivas de futuro"
A área dos Estudos Ibéricos tem registado um crescimento constante nas últimas décadas, como alternativa às disciplinas mais monolíticas (e frequentemente monolingues) dos Estudos Hispânicos ou Portugueses (ou Bascos, Galegos ou Catalães). Publicações, congressos, departamentos, grupos e projectos de investigação recentes evidenciam esta tendência de interdisciplinaridade que, se em alguns casos talvez responda a motivos estritamente institucionais, e noutros a uma simples moda, também pode ser entendida como o resultado do esgotamento dos modelos filológicos nacionais e tradicionais, e ao desenvolvimento de uma abordagem verdadeiramente comparatista e transnacional dos fenómenos literários ibéricos. Em qualquer caso, este é um campo ainda altamente fragmentado, e carente de fundamentos teóricos sólidos, de uma metodologia e de objectivos específicos. Esta comunicação tentará, portanto, oferecer um muito breve “estado da arte” do campo dos Estudos Ibéricos, na Península e fora dela, assim como uma definição tentativa dos seus limites, configuração e perspectivas de futuro.
Teresa Pinheiro: "Os Estudos Ibéricos e Europeus – Arqueologia de um novo campo epistemológico"
Na última década, assistimos à institucionalização dos Estudos Europeus nas universidades do continente europeu. O surgimento deste novo campo académico relaciona-se com o processo de integração europeia e com a crescente popularidade dos “Estudos de Área” na Europa. Embora os Estudos Ibéricos estejam ainda muito ligados à tradição dos estudos filológicos, tem havido algumas tentativas recentes para institucionalizar este campo epistemológico no interior dos Estudos Europeus.
Na minha contribuição, tentarei delinear alguns dos fundamentos teóricos e temáticos dos Estudos Ibéricos como campo de estudo na sua intersecção com os Estudos Europeus, tal como se praticam nas Universidades da Europa Ocidental.
Cristina Almeida Ribeiro: "Existe Ibéria na Idade Média tardia e na primeira Idade Moderna?"
A naturalidade com que tantas vezes hoje se fala da Ibéria concebida como uma unidade mais do que geográfica quase faz esquecer que durante séculos uma tal percepção não existiu, nem para os intelectuais, nem para os governantes. Quando remontamos aos finais da Idade Média e nos confrontamos com aspirações hegemónicas tendentes ao domínio do território peninsular, depressa percebemos que no horizonte dos reis não estava então a vontade de tutelar um espaço homogéneo e simplesmente designado por Ibéria – palavra então desprovida de sentido –, mas antes o desejo de associar ao seu nome um elenco alargado de senhorios, que, pela justaposição, exibissem a glória das suas conquistas ou o alcance da sua visão política. Repercutindo no plano cultural e literário a rivalidade patente no plano social e político, também a actividade dos poetas se fazia então quase sempre sob o signo da emulação, que, assumida ou dissimulada, se traduzia, para cada grupo nacional, na busca de uma identidade própria, passível de afirmação através da superioridade ou da diferença. E, no entanto, impossível será não reconhecer que a realidade histórica favorecia um intercâmbio cultural intenso, que, ao ritmo oscilante de alianças e confrontos, embaixadas e exílios, permitiu a emergência de afinidades electivas e a constituição de quadros de referências comuns que parecem dar aos estudiosos do século XXI razões para estudar, na sua especificidade, os cancioneiros ibéricos ou o romance pastoril ibérico.
Juan Miguel Ribera Llopis: "Apreciações centropeninsulares sobre a regeneração literária catalã"
É preciso atentar na documentação coetânea que testemunha o grau de recepção e o discurso crítico estabelecido entre o final do século XIX e o início do século XX por parte do sistema literário castelhano, historicamente estável, a respeito das regenerações literárias galega e catalã - contempladas como literaturas regionais, expoentes de sistemas literários menorizados. O reconhecimento da Península Ibérica como uma área interliterária, configurada como espaço com um âmbito central e outros periféricos, permite dotar estas categorias espaciais de uma dupla semântica: do ponto de vista geográfico, com um centro equidistante, e da perspectiva da exclusão histórico-cultural. Do mesmo modo, a categoria do periférico permite atender ao interesse, no lado português, por estes regeneracionismos estatalmente espanhóis mas culturalmente ibéricos. Centrar-nos-emos na cronologia indicada, por entender que é esse o momento em que os regeneracionismos galego e catalão forjam os seus respectivos modelos de sistemas culturais, que têm marcado a sua trajectória contemporânea.
Leonardo Romero Tobar: "O iberismo de Valera"
O escritor e diplomata espanhol Juan Valera desenvolveu, desde a sua primeira temporada em Lisboa (1850), uma intensa actividade de leitura, crítica e relações pessoais com escritores portugueses contemporâneos. Desde as suas contribuições na Revista Peninsular (1855-1856) até ao seu romance Morsamor (1899) deu disto amplo testemunho de isto. Nesta intervenção serão estudados e discutidos os conceptos de “nação” e “civilização” tal como Valera os usava para explicar a sua ideia do que tinham sido e do que deviam ser as relações entre os países ibéricos.
Jaume Subirana: "Quem é que somos? Jovens romancistas catalães escrevem sobre a identidade nacional"
Com o aparecimento, por um lado, de uma brilhante geração de jovens narradores que não têm já qualquer ligação com as coordenadas do Franquismo e, por outro lado, com a maior transformação operada na população da Catalunha desde os anos sessenta (em dez anos, de 2000 a 2010, passou-se de 6 para 7 milhões de habitantes, com um milhão de novos cidadãos, maioritariamente estrangeiros), o tema da identidade (ou das identidades), o olhar sobre o país, e a tentativa de dar nome aos que nele vivem, reapareceram nas livrarias com títulos que, nalguns casos, obtiveram muito boa resposta por parte do público. A ferramenta para a reflexão destes jovens escritores é hoje a ficção literária, mais do que o ensaio, sem renunciar a nenhuma das suas possíveis formas (novela e conto, naturalmente, mas também reportagem jornalística, crónica, pseudobiografia e memória pessoal).
Jüri Talvet: "Como investigar as literaturas ibéricas numa perspectiva comparada e europeia? Premissas e contextos"
Na minha apresentação tentarei caracterizar o estado actual dos estudos literários comparados na Europa e no mundo, mostrando os seus avanços e os seus importantes vazios, tanto na teoria como na prática. Desenvolverei as ideias e conceitos postulados no meu artigo “Edaphos and Episteme of Comparative Literature” (Interlitteraria, 10, 2005, pp. 46-56), incidindo não tanto na recepção da literatura no eixo “texto-leitor” ou “texto-texto”, mas nas premissas e nos contextos da recepção intercultural da literatura, especialmente em relação com os conceitos de “centros”, “periferias” e “fronteiras” (baseando-me, neste aspecto, em algumas das ideias apresentadas nos últimos escritos de Yuri M. Lotman).
Roberto Vecchi: "Pensando desde a Europa num 'Sul' ibérico"
Ainda que através de um processo bastante complexo, a inscrição europeia da Península Ibérica define uma posição meridional e a conceptualização desse aspecto e, num sentido mais geral, das culturas nacionais que compõem a Península. Neste sentido, a Península Ibérica suscita sempre uma reconfiguração da ideia do Sul (europeu), em especial face a outras noções do “sul” (em sentido plural), como o “Meridione” italiano definido de um modo extremamente agudo e seminal por Antonio Gramsci. Deste ponto de vista, torna-se muito interessante averiguar quando é que a consciência meridional se torna crucial no ámbito das reflexões europeias nas culturas ibéricas, como acontece na conferência de Antero de Quental Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos (1871) e, mais genericamente, no horizonte cultural peninsular do fin-de-siècle.
Assim, é relevante considerar o contexto ibérico no quadro do movimento de modernização, em particular verificando como esse movimiento subjectiviza (num modo duplo, Foucaultiano) este espaço como o seu Sul específico e intersubjectivo (ou seja, relacional), aproximando-se da esfera do que, de novo com Gramsci, poderemos chamar um espaço social “subalterno”. Os estudos culturais e pós-coloniais contemporâneos, ainda que delineados dentro e não fora da Europa, podem contribuir para melhor configurar este processo, fornecendo novas ferramentas e tópicos para interpretar o “sul” –mesmo o Sul ibérico- como uma construção cultural e política.
Crina Voinea: "Açorianidade(s). Identidade, narrativa, mitos"
O objectivo desta comunicação é definir os limites do conceito de “açorianidade” de acordo com uma perspectiva oriunda do outro extremo da Europa, e que traduz o olhar (de parte) dos leitores da literatura lusófona. Em consequência, resulta da leitura de textos literários de paises ibéricos e transatlânticos. A análise deste tipo de literatura cruza o continente europeu de Este a Oeste, e fica indubitavelmente contaminada. Assumo que definir “açorianidade” apenas do ponto de vista da produção literária poderá ser uma tarefa arriscada devido à suas limitações. Aceito o risco, e coloco a hipótese de que a “açorianidade literária”, uma vez circunscrita, descrita e definida, proporcionará evidência e argumentos para uma definição tão completa quanto possível de “açorianidade”.